Há sensivelmente 4 anos, a RFET, entidade responsável pelo ténis no país vizinho, achou que não podia continuar sem uma espécie de "plano de urgência para o ténis feminino".
Em masculinos, tudo bem para nuestros hermanos, com 3 jogadores a ocuparem o número 1 ATP nos últimos anos. Já em femininos, desde o abandono de Arantxa e Conchita Martinez, as tenistas espanholas têm passado ao lado dos grandes momentos do ténis mundial.
Como proceder? Os líderes federativos entenderam lançar o tal plano. Deram-lhe o agradável nome de "Enamórate" e duas vertentes: uma para as miúdas entre os 10 e os 12 anos, e outra para as jogadoras a iniciarem-se nas lides do profissionalismo.
Na primeira vertente, um pouco ao jeito do nosso PNDT, fizeram-se algumas concentrações com pequenas tenistas de 10, 11 e 12 anos, assimilando análises psicológicas, rastreios médicos, sessões de técnica e preparação física. Resultou a escolha de 16 meninas para algo do género do nosso CAR e, em anos posteriores, novos processos de selecção.
É uma vertente que poderá ou não ter resultados. Todavia, em termos humanos, levantam-me bastantes dúvidas os casos de desenraizamento familiar e geográfico de crianças com 10 ou mesmo 12 anos.
A outra vertente, tem todo o cabimento, assim haja dinheiro para a levar por diante. Trata-se de aumentar ao máximo o número e a qualidade dos torneios internacionais pontuáveis para a WTA em território espanhol. Pouco a pouco, o número e o nível destes torneios tem aumentado, colocando o país de Cervantes ao nível de França e Itália, muito além dos Quixotismos bacocos de outras eras.
Ainda temos "só" 5 jogadoras espanholas no top-100 WTA contra 10 de França e 6 de Itália, mas nota-se um progresso. Os espanhóis têm 5 elementos no top-100 WTA e 13 no top-100 ATP, mas o avanço da "Armada feminina" não passa desapercebido a ninguém.
Que podemos retirar daqui para o panorama português? Creio que há que assumir o péssimo estado do nosso ténis feminino, como os vizinhos assumiram o relativamente medíocre estado do deles. Como diria o mediático Dr. Phil: "Não se pode mudar o que não se reconhece".
Isso talvez seja o mais importante. Seguidamente, penso que faria sentido um plano de excepção para o nosso ténis feminino, algo que procurasse equilibrá-lo com o masculino. Claro que isto deveria ser simultâneo com a ascensão do nosso ténis masculino a patamares cada vez mais elevados.
De entre as medidas tomadas por nuestros hermanos, já está implícito acima que a mais interessante para mim é o incremento das provas pontuáveis para o ranking WTA.
Uma ideia que surge muito quando se fala em melhorar o ténis feminino é a de criar ou aproveitar treinadores "especializados em ténis feminino". Será que isso existe (ou pode vir a existir)? Os defensores desta posição alegam que a cronologia do desenvolvimento físico e psicológico feminino é diferente do masculino, falam da maior sensibilidade das mulheres, etc. Creio que carece de maiores fundamentos uma separação tão radical. Aliás, vejo no convívio constante entre os dois sexos uma das vertentes mais simpáticas e enriquecedoras do ténis.
Há ideias mais ou menos válidas, mais ou menos validáveis, mas o surgimento de ideias bem intencionadas merecerá sempre atenção e só com novas e diversificadas ideias poderá melhorar algo.
Uma última palavra para salientar que Portugal tem jovens tenistas com claro potencial para chegar ao topo das classificações da WTA: Michelle Brito, Maria João Koehler, Patrícia Martins, Bárbara Luz, Ana Claro, Rita Vilaça, Margarida Moura, Joana Valle Costa... Faltam duas coisas: mais apoios para estas e o surgimento de muitas outras. É manifesta a existência de muito mais qualidade do que quantidade quanto toca falar do futuro do ténis feminino nacional.